Como ajudar a sua filha a se conhecer e a se proteger: desafios e soluções para pais de todas as realidades
- eliana mattar
- 23 de jan.
- 5 min de leitura
Atualizado: 12 de fev.
Independentemente do contexto socioeconômico, todas as famílias podem se beneficiar de
estratégias que promovam o autoconhecimento e a proteção emocional de suas filhas.
Os dados mostram que a conscientização sobre autoconhecimento e habilidades socioemocionais pode ter um impacto significativo na redução de bullying e violência entre jovens.

Pesquisa do Centro para Prevenção e Controle de Doenças dos Estados Unidos (CDC) verificou uma diminuição nas taxas de bulling físico na escola e bulling geral de 2011 a 2021. Onde houve programas de prevenção e conscientização, houve redução da violência sexual e do bulling.
O Órgão da Organização das Nações Unidas para a Infância, UNICEF sigla em inglês, em ampla pesquisa com propostas de ensino para meninas, de junho de 2023 (www.unicef.org/lac/en), informa que a América Latina e o Caribe possuem uma população de meninas entre 10 e 19 anos de mais de 51 milhões.
A vulnerabilidade e o risco da exposição ao perigo, como gravidez precoce, exploração de sua imagem nas redes socias, entre muitos outros que as meninas estão sujeitas, motiva a criação de vários projetos organizados pela UNICEF em parcerias com escolas.
O Brasil, assim como outros países, já tem leis que protegem os direitos das meninas. No entanto, a realidade é que esses direitos não são plenamente exercidos.
A família deve evitar esperar que o Estado e a escola estejam totalmente atentos ao ensino de habilidades socioemocionais. Por isso, cabe à família ocupar sua posição também de educadora emocional, no sentido de fornecer apoio e recursos emocionais para as meninas se empoderarem.
Ensinar as meninas o quanto mais cedo sobre autoconhecimento e sobre habilidades socioemocionais é dar a elas poderosas ferramentas contra diversas formas de violência, seja física e/ou psicológica. Com menos idade, há mais controle dos pais sobre as influências externas sobre suas filhas.
A adolescência é um período ideal para iniciar o ensino do autoconhecimento, com a idade mais favorável sendo geralmente entre 12 e 18 anos. Nessa fase, os jovens estão desenvolvendo sua identidade e começam a questionar e explorar quem são.
Eles já refletem sobre si mesmos e suas emoções, tornando esse um momento ideal para
aprender sobre autoconhecimento. No entanto, cada adolescente é único, e alguns podem estar mais receptivos ou prontos para esse aprendizado em diferentes idades dentro desse intervalo.
Sim, há diferenças na abordagem de pais de meninas de diferentes contextos socioeconômicos.
Pais de diferentes classes sociais podem ter preocupações, prioridades e recursos distintos ao lidar com o autoconhecimento e a proteção de suas filhas.
No entanto, independentemente da realidade das famílias, dentro de um padrão de normalidade, todas podem oferecer, com atenção, paciência e acolhimento, maneiras de as suas filhas aprenderem sobre autoconhecimento, como:
• Comunicação Aberta: criar um ambiente acolhedor em casa onde as meninas se
sintam à vontade para expressar suas emoções e preocupações.
• Educação Emocional: ensinar habilidades de inteligência emocional e resolução de
conflitos.
• Exemplos Positivos: pais que dão exemplos eles mesmos de comportamentos de
autoconhecimento e autocompaixão, pais que inspiram, têm autoridade sem serem autoritários e, por isso, seus filhos tendem a ser menos defensivos e revoltados ou desmotivados.
O autoconhecimento é a base das habilidades socioemocionais. Ele envolve a capacidade de reconhecer e entender suas próprias emoções, pensamentos e valores.
Essa autoconsciência permite que as pessoas identifiquem como suas emoções influenciam seu comportamento e suas relações com os outros.
Segundo a Organização dos Estados Unidos para a colaboração para o ensino acadêmico, social e emocional, CASEL, sigla em inglês, a autoconsciência é uma das competências essenciais da aprendizagem socioemocional. Uma vez que a pessoa se torna consciente de suas emoções, ela pode usar essa informação para gerenciar seus comportamentos de maneira que dê resultado.
Isso inclui a regulação emocional, controle de impulsos e a capacidade de lidar com o estresse. Aumenta a possibilidade de manter a calma e a concentração especialmente em situações desafiadoras.
Outro benefício do autoconhecimento é o desenvolvimento da capacidade de entender e ter
consideração com os outros. São todos comportamentos aprendidos e que desenvolvem a
inteligência emocional.
Aprende-se habilidades como comunicação, resolução de conflitos, cooperação e resiliência que é a capacidade pra suportar situações desconfortáveis. Pessoas que entendem suas próprias necessidades e limites sabem expressá-los com mais clareza e a ouvir e a respeitar os dos outros.
As meninas que aprendem autoconhecimento tendem a ter mais confiança, são mais capazes de estabelecer e manter limites saudáveis, e são campazes de buscar ajuda quando necessário. Além de contribuir para a saúde mental e emocional, reduzindo o aparecimento de problemas como a ansiedade e a depressão.
Aqui vão algumas medidas práticas que podem contribuir com os pais nessa jornada desafiadora:
Aceitação e validação das emoções: dizer que é “bobagem” ou “exagero” o que a menina está sentindo é recebido por ela como desprezo pelo que sente. O objetivo é ajudá-la a ultrapassar a emoção e oferecer opções para ela refletir e administrar a situação que motivou a emoção. Para o medo, ensina-se a respirar fundo, a pensar em algo bom e alegre. Para a tristeza, normalizar o choro que alivia, oferecer distração, respeitar o tempo de recuperação da menina. Para a raiva, ajudá-la com perguntas para que ela possa refletir e entender de onde vem essa emoção e como diminuir a exposição à situações que causem raiva. A raiva é boa, o que é mau é a sua manifestação violenta.
Atenção ao elogiar: A investigadora Carol Dweck fala dos perigos do elogio e dos rótulos, sejam positivos ou negativos. Estes carregam um peso, quase uma sentença: você é uma pessoa bonita, elegante, inteligente, etc, ou perfeito! Maravilhoso! Encorajar seus esforços dá ao elogiado a possibilidade de não se desvalorizarem quando fracassam, especialmente os jovens e crianças. O desafio é substituir a nossa linguagem automática e valorativa por uma descritiva para construir uma comunicação mais atenciosa e amorosa. Descrever qual a ação ou a atitude da outra pessoa que queremos felicitar;
Rede de apoio: trocar informações com outras famílias com a mesma realidade;
Reunião de família: essa prática frequente ( quinzenal, semanal, mensal, etc) e com a duração a ser definida por cada família é bastante incentivada para estabelecer a comunicação amigável entre os seus membros que podem trazer para esse momento especial suas reflexões, dúvidas e questionamentos. Não se trata de um tribunal de acusação. Aconselha-se, inclusive, fazer dias antes uma lista dos assuntos que serão tratados. Para ser boa e ter resultados, não deve ser longa. Pode-se ir aumentando o tempo após a avaliação dos resultados das reuniões anteriores;
Encorajar a meninas a dançar, cantar, desenhar, fazer esporte: incentivar essas práticas ajuda as meninas a terem confiança em si mesmas, na sua imagem corporal e na construção da sua autoestima;
Evitar julgamentos que tragam culpa e vergonha: atitudes dessa natureza podem marcar a trajetória de vida de uma menina.
Incentivar o pensamento crítico: fazer perguntas que ajudem a menina a refletir sobre seus comportamentos, preferências, crenças, de modo que a impulsividade própria da juventude vá dando espaço para a autorreflexão e o autocuidado.