Há homens que enfeiam as mulheres e há mulheres que se deixam enfeiar (da série Filosofia para quem não quer saber de Filosofia)
- eliana mattar
- 24 de jan.
- 2 min de leitura
Atualizado: 12 de fev.
Marcia de Vasconcellos Camargo
Janeiro 2024 Pergunto-me: por que há uma cena tão recorrente entre as mulheres no contexto de algumas relações - uma aura de tristeza, um apagar, o aspecto descuidado, o sobrepeso, uma expressão triste de sem-sorriso, um sem-sorriso para sempre.
O que na vida destas mulheres as impregna de uma figura triste?

As mulheres veem-se, a maior parte delas, pelos olhos do homem. Este olhar emoldura e pinta o retrato que a mulher reconhece como o seu retrato.
Aprendemos de tal forma a valorizar o olhar do homem sobre nós que este assume o condão de definir-nos.
O adestramento para agradar aos homens, para cuidar e sustentar emocionalmente as relações é parte fundamental no alicerce das relações de gênero.
O espelhar-se no olhar do outro, esperar do outro a confirmação e o reconhecimento, delega a este outro a capacidade de moldar-nos - a crítica constante e exacerbada, o comporta-te, já não tens quinze anos, o cala-te, o vai olhar-te ao espelho... a negligência e a indelicadeza, o não é sim, o não precisas disso, para determinar limites, o sexo sem erotismo, o mau sexo, ou nenhum, anulando a expressão da tua libido, tornam-se mais do que interações negativas.
Este olhar constantemente repressivo e limitador passa a ser a forma com que passamos a ver-nos, introjetando no âmbito emocional e psíquico esta imagem de fora, imagem que passa a ser como nos vemos.
Este poder do olhar normativo masculino estende-se e entranha-se na sociedade, não raro gera normas sociais, ditos e interditos reproduzidos pelas próprias mulheres.
Não deixe-se enfeiar pelo olhar do outro, não se deixe moldar pelas normas sociais que constroem muros entre si e seus desejos, suas capacidades, suas emoções.
O olhar que desfigura e enfeia não é seu, é do outro, faz parte dos interesses e das vivências do outro. Tenha a coragem de questionar, resistir, conflituar e, quando é preciso, romper com o olhar que enfeia.
Há olhares que embelezam. Busque o olhar que te embeleza. Resgate o seu próprio olhar sobre si, seja cúmplice quando tem que ser cúmplice, estabelece limites quando deve.
Retome o condão de autodefinir-se, olhe-se de dentro para fora, conheça-se, embeleze-se!